O Professor Nuno Ricardo Oliveira partilha a sua visão sobre o papel do “terceiro espaço” na transformação do ensino superior.
Uma reflexão sobre o terceiro espaço como motor estratégico de um ensino superior mais inovador e alinhado com os desafios atuais e futuros.
1. Como define o conceito de “terceiro espaço” no contexto da educação superior?
O terceiro espaço, tal como conceptualizado por Celia Whitchurch, refere-se a um conjunto de profissionais do ensino superior que, não sendo docentes, são altamente qualificados e desempenham um papel fundamental na transformação das instituições. Trata-se de um espaço híbrido, onde se cruzam ensino, tecnologia, gestão e inovação pedagógica.
Mais do que uma categoria profissional, considero que o terceiro espaço representa uma mudança estrutural na forma como concebemos o ensino superior. No EPIES’25 — o primeiro encontro dedicado a estes profissionais — evidenciou-se que estamos perante um verdadeiro ecossistema de colaboração institucional, onde estes atores assumem um papel ativo na construção e melhoria da experiência de ensino e aprendizagem.
Este “3.º espaço” é sustentado por uma diversidade de profissionais técnicos e especializados que assumem um papel central na inovação educativa — desde instructional designers a gestores de LMS, bibliotecários, gestores de programas, especialistas em multimédia e apoio pedagógico. No quotidiano das instituições, atuam na interseção entre as dimensões académicas, tecnológicas e administrativas, contribuindo de forma decisiva para a implementação de metodologias pedagógicas inovadoras, para o desenvolvimento de ecossistemas digitais de aprendizagem e para a transformação do ensino superior.
Neste posicionamento híbrido, que cruza a docência com as dimensões operacionais e tecnológicas, estes profissionais vão além do apoio ao ensino — afirmam-se como agentes ativos da sua transformação.
2. De que maneira o terceiro espaço pode potenciar novas formas de aprendizagem mais práticas e colaborativas?
Os profissionais do terceiro espaço, em estreita colaboração com os docentes, criam as condições necessárias para a implementação de abordagens pedagógicas mais ativas, autênticas e centradas no estudante, ao integrarem diferentes competências no desenho do ensino.
Esta colaboração permite conceber experiências de aprendizagem:
- orientadas para a prática, através de projetos, desafios reais e ligação a contextos profissionais
- colaborativas, promovendo o trabalho em equipa e a construção partilhada do conhecimento
- intencionalmente suportadas por tecnologia, utilizada não como um fim, mas como um meio para potenciar a aprendizagem
Ao envolver profissionais de diferentes áreas — pedagogia, tecnologia, multimédia, bibliotecas — o terceiro espaço contribui para a criação de ecossistemas de ensino e aprendizagem mais ricos, integrados e inovadores.
Neste sentido, funciona como um verdadeiro catalisador de inovação pedagógica sustentada, permitindo ultrapassar abordagens isoladas e promovendo práticas consistentes, com impacto real na aprendizagem dos estudantes.
3. De que forma estes profissionais podem beneficiar os estudantes e aumentar o seu envolvimento académico?
Na minha opinião, os profissionais do terceiro espaço desempenham um papel fundamental na garantia da qualidade e eficácia das experiências de aprendizagem no ensino superior.
O seu contributo vai muito além do suporte técnico: asseguram que todo o ecossistema de ensino funciona de forma articulada — desde o desenho pedagógico das unidades curriculares e dos currículos, até à sua implementação em ambientes digitais que sustentam a aprendizagem.
Embora muitas vezes invisível, o seu trabalho é decisivo. Em estreita colaboração com os docentes, contribuem para:
- estruturar experiências de aprendizagem com maior clareza e coerência
- promover atividades mais interativas e participativas
- apoiar a integração da tecnologia de forma intencional e pedagogicamente orientada
O impacto nos estudantes é direto: ambientes de aprendizagem mais organizados, relevantes e envolventes traduzem-se em maior participação, motivação e sucesso académico.
O EPIES’25 veio reforçar esta evidência, ao dar visibilidade a um conjunto de profissionais cujo contributo é essencial para as instituições de ensino superior. Mais do que um benefício indireto, o seu trabalho resulta numa experiência de aprendizagem mais alinhada com os desafios contemporâneos, aproximando o ensino da realidade que os estudantes irão encontrar fora da academia.
4. Qual o impacto deste tipo de abordagem na criatividade, autonomia e preparação dos estudantes para o mercado de trabalho?
Aquilo que tenho vindo a observar, tanto na prática letiva como no trabalho com docentes, é que esta abordagem tem um impacto muito significativo no desenvolvimento de competências essenciais para o século XXI.
Num contexto em que o ensino superior enfrenta desafios complexos — como a transformação digital, as novas exigências do mercado de trabalho e a necessidade de maior flexibilidade e inclusão — o papel do terceiro espaço torna-se ainda mais determinante.
Ao promover ambientes de aprendizagem mais ativos, colaborativos e autênticos, potenciados pela articulação entre docentes e profissionais do terceiro espaço, os estudantes são colocados no centro do processo e desafiados a assumir um papel mais ativo na sua formação.
Neste contexto, desenvolvem:
- maior autonomia, ao gerir e construir o seu próprio percurso de aprendizagem
- maior criatividade, ao lidar com problemas abertos e situações reais
- competências sociais e cognitivas avançadas, como colaboração, pensamento crítico e resolução de problemas
Estas competências são hoje amplamente reconhecidas como fundamentais para a empregabilidade e para a adaptação a contextos profissionais em constante mudança.
Por isso, o terceiro espaço não deve ser visto apenas como uma resposta organizacional às exigências do ensino superior, mas como um elemento estratégico na formação de graduados mais preparados, reflexivos e capazes de aprender ao longo da vida.
Tema Vozes da Comunidade Académica