A promoção do bem-estar, da inclusão e do sucesso académico constitui um eixo central da atuação do CNIPES, em articulação com os desafios contemporâneos do ensino superior. Nesta entrevista, a professora Cristina Albuquerque e membros do conselho refletem sobre práticas pedagógicas, estratégias institucionais e o papel dos centros de inovação na construção de ambientes de aprendizagem mais equitativos, participativos e centrados no estudante.
É evidenciada a importância de uma abordagem integrada, que articula dimensões académicas, sociais e pessoais do desenvolvimento dos estudantes, bem como a necessidade de reforçar culturas institucionais que valorizem a diversidade, a participação ativa e a melhoria contínua das práticas educativas.
1. Como pode o CNIPES promover o bem‑estar dos estudantes como fator de sucesso académico?
No âmbito do CNIPES (e em particular no Grupo de Trabalho sobre Bem-Estar, Inclusão e Sucesso no Ensino Superior – BIS-ES) considera-se que o bem-estar de estudantes (mas também de docentes e do terceiro espaço) é um elemento central de práticas educativas inovadoras, criando experiências de aprendizagem mais significativas, inclusivas, saudáveis e promotoras de sucesso académico. Este é concebido como um conceito composto e multifatorial, integrando as dimensões:
- Dos resultados académicos alcançados pelo/a estudante e mensurados por indicadores de índole quantitativa,
- Da aprendizagem e do desenvolvimento pessoal, psicológico e social, associada à aquisição de competências cognitivas e metacognitivas, comportamentais e de comunicação, e
- Da inclusão e adaptação bem-sucedida, integrando políticas institucionais adequadas, autoperceção de eficácia e promoção de bem-estar e de uma cultura de pertença.
Neste sentido, considera-se que o CNIPES pode promover o bem-estar de estudantes como fator de sucesso académico:
- Produzindo recomendações para a promoção do sucesso educacional, prevenção do abandono no ensino superior e aprendizagem substantiva, tendo por base indicadores de bem‑estar concebido como multidimensional, (saúde física e mental, relacionamento interpessoal e sentimento de pertença, e ambientes de aprendizagem inclusivos);
- Apelando à responsabilidade pedagógica e institucional na promoção de um ambiente inclusivo e de uma cultura organizacional assente no desenvolvimento de competências que englobem processos cognitivos e de aprendizagem associados a pensamento crítico, criatividade, relações interpessoais entre todos os elementos da comunidade académica (estudantes, docentes, investigadores e terceiro espaço);
- Advogando a promoção de um ensino e aprendizagem verdadeiramente centrado nos/as estudante/s, atento também às especificidades de novos públicos no ensino superior (trabalhadores/as-estudantes, estudantes estrangeiros/as, estudantes em formação continuada ao longo da vida, etc.);
- Associando-se aos centros de inovação pedagógica em processos de reflexão partilhada, recolha de dados qualitativos e quantitativos sobre bem‑estar, inclusão e sucesso académico, e estudos de impacto, de modo a contribuir para a fundamentação de ações e decisões, evitando que a inovação pedagógica seja apenas um discurso abstrato, uma resposta pontual e intuitiva, ou uma mera resposta tecnológica.
2. Que práticas pedagógicas são mais eficazes em contextos de diversidade?
Os diversos estudos que têm sido produzidos nesta matéria evidenciam a importância de práticas pedagógicas inovadoras que motivem os/as estudantes a aprender de forma mais ativa, atendam à diversidade de estilos e ritmos de aprendizagem e criem ambientes de aprendizagem inclusivos, acolhedores e colaborativos.
A inclusão está, assim, ligada a uma cultura de acolhimento e valorização das práticas académicas, pedagógicas, de investigação, relacionais e de respeito pela diversidade, a fim de promover a presença, a aprendizagem e a participação de cada pessoa.
Embora a noção de eficácia deva ser entendida de forma contextualizada e multidimensional, as práticas pedagógicas que são frequentemente apontadas como mais eficazes em contextos de diversidade na educação superior são as que combinam: desenho universal da aprendizagem (planificar unidades curriculares com múltiplas formas de envolvimento, representação e expressão de forma a antecipar a diversidade em vez de apenas “adaptar” caso a caso), metodologias ativas, diferenciação pedagógica e avaliação flexível, articuladas com políticas institucionais de inclusão e equidade (com tradução em regulamentos, apoios sociais, combate à discriminação, e em serviços de apoio psicopedagógico, acessibilidade e ação social escolar) e formação docente contínua (incluindo formação sobre crenças e atitudes face à inclusão e conhecimento sobre educação e sociedade inclusiva).
3. Como integrar a inclusão de forma estruturante nas estratégias pedagógicas?
Na educação superior, as estratégias de inclusão integram práticas, políticas e processos que defendem o direito de acesso e a valorização da diversidade, apoiam a participação e reduzem a exclusão, através da identificação e eliminação de barreiras curriculares, didáticas, organizacionais e relacionais, e de análises multivariadas (globais e caso a caso) que permitam ajustar processos e políticas.
Integrar a inclusão de forma estruturante nas estratégias pedagógicas pode implicar, entre outras:
- O desenvolvimento de processos de aprendizagem e avaliação com níveis distintos de complexidade e diversidade, bem como tutoria ou monitoria dirigida a estudantes com maiores dificuldades;
- O ajuste de carga e formato das tarefas, a oferta de materiais pedagógicos em formatos alternativos (áudio, texto simplificado, legendas), a existência de ambientes de estudo mais silenciosos e ou com menos estímulos;
- A transparência e critérios explícitos comportando planos de acompanhamento, grelhas de avaliação partilhadas, momentos de feedback formativo (oral e escrito) ao longo do semestre, de modo a minimizar as desigualdades associadas ao capital social e cultural.
A inclusão torna-se estruturante quando é incorporada na arquitetura curricular, na governação e na cultura institucional, através de processos de inovação pedagógica que redesenham contextos e não se constituem apenas como adaptações pontuais. Deste modo, as práticas pedagógicas mais eficazes em contextos de diversidade são aquelas que concretizam a interdependência entre bem‑estar, inclusão e sucesso educacional, em vez de os tratar como dimensões separadas.
4. Que papel podem desempenhar os centros de inovação pedagógica?
Os Centros de Excelência para a Inovação Pedagógica (CEIP) e os respetivos consórcios são pontos de contacto privilegiados entre o CNIPES e as instituições de ensino superior.
Os centros são peças estruturais na construção de ambientes de aprendizagem mais inclusivos, equilibrados e centrados no estudante, logo:
- Traduzem, nos respetivos contextos, a visão de inovação pedagógica como processo holístico – inclusivo, focado nas pessoas e personalizado – e concretizado em programas de formação, apoio à docência e a projetos de experimentação pedagógica que cruzem bem‑estar, inclusão e sucesso;
- Promovem processos de recolha e análise de dados (resultados quantitativos e evidências qualitativas) sobre bem‑estar, inclusão e sucesso, mapeando dimensões individuais, pedagógicas, institucionais e da envolvente externa, em linha com a conceção multidimensional de sucesso educacional;
- Constituem-se como “laboratórios institucionais” para a construção de ambientes de aprendizagem nos quais a inovação pedagógica se constitui como um compromisso com uma educação mais humana, equitativa e transformadora, que cultiva o bem‑estar e valoriza a diversidade como parte do desenvolvimento integral.
Em suma, os Centros podem, em cooperação com o CNIPES, ajudar a garantir que a inovação pedagógica não é episódica, mas estrutural e intencional.
Tema Vozes da Comunidade Académica