O primeiro ano no ensino superior representa muito mais do que o início de um novo ciclo académico. É um período determinante para a adaptação dos estudantes, para a construção de novas relações e hábitos de estudo e para o desenvolvimento do sentido de pertença à comunidade académica.
Nesta entrevista ao CNIPES, a Professora Doutora Joana Cruz, Conselheira do CNIPES e representante da Fundação Minerva/Universidade Lusíada, Centro de Excelência PEDAGOGIA XXI, reflete sobre a importância de transformar o acolhimento num processo estruturado, intencional e articulado, capaz de criar, desde os primeiros contactos, condições favoráveis ao bem-estar e ao sucesso dos estudantes.
1. De que forma um bom acolhimento aos estudantes do 1.º ano pode influenciar o seu bem-estar e o sucesso ao longo do percurso académico?
A investigação em Educação Superior tem vindo a demonstrar, de forma consistente, que o primeiro ano constitui o período mais crítico e vulnerável do percurso académico. É nesta fase que os/as estudantes constroem novas identidades académicas, desenvolvem hábitos de estudo e estabelecem os padrões de participação institucional que tenderão a manter ao longo da sua formação. Um acolhimento estruturado e intencional não é, por isso, um gesto simbólico de boas-vindas, mas uma condição pedagógica determinante para o sucesso.
A forma como o/a estudante se sente competente e ajustado às exigências da vida universitária é o mecanismo central através do qual as condições institucionais se traduzem em bem-estar, sentido de pertença e persistência. Um bom acolhimento reduz o risco de isolamento, fortalece a autoconfiança e a autoeficácia do/a estudante e cria as bases relacionais, com pares, docentes e a comunidade académica, que sustentam o compromisso com os estudos ao longo de todo o percurso.
Importa sublinhar que este bem-estar é, por natureza, holístico: não depende de uma única estrutura ou de um único serviço, mas de todo o ecossistema da instituição (docentes, direções de curso, serviços académicos e administrativos, profissionais de apoio ao estudante) e todas as estruturas, naturais e construídas (espaços de estudo, de convívio, laboratórios, bibliotecas, campus). O acolhimento eficaz é aquele em que este ecossistema atua de forma coordenada, estruturada e intencional. Neste sentido, é desejável colocar, na interface direta com os/as estudantes do 1.º ano, os elementos do staff mais qualificados e mais disponíveis para o efeito: docentes com proximidade e metodologias que reforcem as relações interpessoais e profissionais de apoio com formação específica para identificar precocemente sinais de vulnerabilidade. É este investimento intencional nas primeiras interações que distingue as instituições capazes de transformar o acolhimento numa verdadeira condição de sucesso.
2. Quais considera serem os principais desafios enfrentados pelos estudantes durante a transição para o ensino superior e como podem as instituições responder a essas necessidades?
A transição para a educação superior confronta os/as estudantes com um conjunto de exigências frequentemente invisíveis: convenções académicas implícitas, o chamado “currículo oculto”, maior autonomia e autorregulação na aprendizagem, formas de avaliação distintas das vivenciadas no ensino secundário e, muitas vezes, o afastamento do núcleo familiar e das redes de suporte social. A investigação identifica que as dificuldades nesta transição não decorrem de uma causa única, mas de trajetórias distintas: dificuldades académicas e estruturais cumulativas, constrangimentos financeiros e logísticos ou desmotivação e desintegração académica progressiva. Esta heterogeneidade implica que não existe uma resposta universal eficaz para todos/as os/as estudantes.
As instituições que melhor respondem a estas necessidades são as que articulam apoio pedagógico, financeiro e psicossocial de forma coordenada, comunicam de forma transparente e acessível, monitorizam sinais precoces de queda de assiduidade, insucesso repetido, desmotivação e atuam antes de as dificuldades se tornarem irreversíveis. A flexibilização de horários, modalidades de frequência e formas de avaliação surge também como resposta relevante para estudantes-trabalhadores/as ou com responsabilidades familiares.
3. Que papel desempenham as práticas de integração, inclusão e acompanhamento na criação de um ambiente académico mais acolhedor e promotor do sucesso dos estudantes?
A integração académica está fortemente associada ao desenvolvimento de um sentido de pertença à comunidade académica. Contudo, o sentido de pertença não surge automaticamente com a matrícula: constrói-se de forma cumulativa, através de oportunidades sustentadas de relação significativa com docentes, pares e a comunidade académica, com as associações de estudantes, programas de mentoria, atividades culturais e desportivas e envolvimento com antigos/as alunos/as. É importante tornar explícito que os/as estudantes do 1.º ano necessitam de integração não apenas com as exigências académicas, mas também com os pares e com o restante ecossistema da instituição, com colegas de turma, de curso e de outras áreas, pessoal técnico e comunidade académica em sentido lato. Um/a estudante pode dominar as exigências curriculares e, ainda assim, sentir-se pouco integrado/a se não desenvolver relações sociais significativas dentro da instituição.
A este propósito, a evidência reunida aponta a educação relacional como um pilar fundamental do sucesso educacional, tal como este é hoje concebido: o sucesso não se resume ao desempenho académico, mas inclui o desenvolvimento pessoal e social do/a estudante, sendo a qualidade das relações que este/a estabelece com docentes, pares e a instituição uma condição estruturante dessa aprendizagem.
A inclusão, por seu turno, implica um compromisso institucional com a equidade e com a remoção de barreiras à participação plena, reconhecendo que todos/as os/as estudantes e em particular estudantes internacionais, de primeira geração, estudantes-trabalhadores ou em situação de maior vulnerabilidade financeira necessitam de respostas diferenciadas e não de soluções padronizadas. Quanto ao acompanhamento dos/as estudantes, os serviços de apoio institucional existem frequentemente nas universidades, mas raramente são ativados antes da existência de dificuldades, desmotivação ou intenção de desvinculação, seja porque os estudantes desconhecem a sua existência, seja porque a comunicação entre serviços académicos, administrativos e de apoio permanece fragmentada. Um ambiente académico acolhedor depende de um acompanhamento proativo, e não apenas reativo, com sinalização atempada, articulação entre estruturas institucionais e acompanhamento sistemático após a identificação de sinais de risco.
4. Que estratégias de inovação pedagógica podem contribuir para que os estudantes do 1.º ano se sintam mais integrados, apoiados e envolvidos desde o primeiro dia?
A inovação pedagógica, quando concebida como processo institucional sistémico, revela-se um dos fatores mais determinantes da integração académica dos/as estudantes. Entre as estratégias com maior evidência de eficácia destacam-se a avaliação contínua e formativa, que permite identificar e corrigir dificuldades antes de estas se tornarem cumulativas; o feedback atempado e dialógico entre docentes e estudantes, essencial para sustentar a motivação e a autoeficácia desde as primeiras semanas; a clareza dos objetivos de aprendizagem e a organização coerente do currículo; e o desenvolvimento de relações pedagógicas de proximidade e confiança, nomeadamente através de tutorias e mentoria entre pares.
Dado que a integração social e relacional é tão determinante para o sucesso como a integração estritamente académica, uma estratégia relevante consiste em dinamizar, logo na primeira semana de aulas, atividades de grupo, de “quebra-gelo” e de desenvolvimento intencional das relações entre estudantes, entre turmas e com o corpo docente. Estas dinâmicas, ao criarem desde o primeiro dia oportunidades estruturadas de conhecimento mútuo e de construção de confiança, antecipam e reforçam o trabalho que a mentoria e a tutoria entre pares desenvolvem ao longo do semestre, ajudando a instalar, desde a receção inicial, uma cultura relacional que se sabe determinante para a persistência e o bem-estar dos/as estudantes.
A investigação recomenda a distribuição equilibrada das exigências de avaliação ao longo do semestre, evitando a concentração de provas em períodos curtos, que penaliza sobretudo estudantes-trabalhadores, bem como maior flexibilidade curricular, incluindo modalidades de frequência mistas ou a distância. Por fim, sublinha-se a importância do investimento na formação pedagógica dos/as docentes, dotando-os de metodologias mais próximas, participativas e inclusivas. A inovação pedagógica só se torna sustentável e transformadora quando deixa de depender de práticas isoladas e passa a estruturar-se como cultura institucional de ensino e aprendizagem.
Tema Vozes da Comunidade Académica